Com seu marido viveu momentos maravilhosos,conhecendo parte da Europa,Ásia e África.Fêz as três coisas importantes em sua vida: plantou árvores (uma delas uma cerejeira japoneza,que tem em sua casa no Leblon,presente de uma familia japonesa,que esteve em sua casa,fêz uma filha e escreveu um livro,sua passagem pela Africa,Namíbia,onde conheceu sua cultura,sua arte,sua gente.
Ficou viúva aos 62 anos,mas aprendeu com o seu companheiro de vida que viver era importante .Muito ativa,sentia-se como que acorrentada,porque nao lhe permitiam viver sua vida em liberdade,como sempre foi. Nao tinham tempo pra ela e sua vida se rezumia numa eternaespera por momentos raros e rápidos. Com seu marido bastava ela se arrumar e ele já pegava seu inseparável chapéu e lá iam para fazer qualquer coisa, caminhar, tomar um sorvete,fazer compras. Joana até compreendia que nao tinham tempo,devido ao trabalho e outras tarefas. Mas nao significava que deveria aceitar isso como um ponto final em sua vida.Era saudável,disposta,mas obrigavam-na a se sentir velha ,embora seu interior nao concordasse. Seus passeios eram a igreja dominical(era católica) e compras,mas tinha sempre alguém à tiracolo ( um dos netos,o Samuel,um serzinho resmungao e impaciente). Isso já estava mexendo com seus nervos.Sempre foi muito calma,passiva,mas tudo tem um limite, nao é verdade?
Joana entrou em greve.
Causou o caos na família.Passou a ficar mais tempo em seu quarto,aparecendo à mesa para comer só quando insistiam. Perdeu o gôsto pelas rosas e por outras coisas que nao vale a pena contar. Era o fim da antiga deslumbrante senhora que gostava de passear pela praia com o seu viralatas, que seu marido achara na rua, o Xandu,tomar sorvetes,tomar água d e coco. Tudo se rezumira em uma cadeira de balancos onde seus pensamentos iam direto ao passado, até que adormecia e Marieta, a empregada vinha acordá-la,com medo de que ela pegasse uma corrente de ar e se resfriasse.Era neste momento que Joana sentia-se em casa,pois Marieta a compreendia mais que sua própria filha. Mas a gôta dágua foi quando ouviu seu genro discutir com sua filha,julgando que ela estivesse dormindo.
- Quantos anos sua mae está conosco e quantas vêzes ela vem à mesa fazer as refeicoes com a gente? Ela só faz o que quer. Agora achou de comer em seu quarto. Isso eu nao vou permitir mais. Nao permito que os meninos facam, logo...Fale com ela ou prefere que eu mesma fale? Pedrinho disse que vai pra casa dos meus pais,porque lá ele tem liberdade para ouvir som alto.
- Ele nao precisa fazer isso,diz Joana saindo d e onde estava . Eu sairei,assim que arrumar um lugar para ficar. Lembre-se,eu nao queria vir pra cá.Se tem alguém que perdeu a liberdade,este sou eu,porque fui obrigada a abandonar a minha casa para viver aqui como uma velha inútil.Ao Pedrinho eu pedi duas vêzes que ele abaixasse o volume,o quarto dele fica sobre o meu e ele aumentou mais ainda. O Samuel quando vocês o mandam sair comigo,o faz com má vontade e me deixa envergonhada nos lugares onde andamos. Eu nao reclamo de nada.Só quero que lembre d e uma coisa,meu genro,que quando vocês se casaram,vocês nao foram para o sítio dos seus pais,porque ficava difícil quanto ao seu trabalho. Eu ofereci a minha casa,o melhor quarto e foram tratados com carinho e respeito. E o que eu tenho na casa d e vocês?Vou procurar um asilo,que eu acho que viverei melhor.
E virando-se para a filha,diz:
-Se eu soubesse que teria de passar por tudo isso. Aluguei a minha casa. Ana me fazia companhia,agora trabalha em outra casa. Meu cachorro está na casa da vizinha,porque aqui nao posso tê-lo e tudo para quê? Sou velha,mas nao estou morta.
Claro,ficava um ambiente horrível e mais um motivo para que Joana rejeitasse a comida.Impossível engolir ,tendo um nó na garganta.
O pior de tudo era o sentimento d e culpa que ela sentia depois de tudo isso,porque sua filha e o marido se desentendiam depois, já que na frente dela,ela nao aumentava a voz,era submissa.Coisa que lamentava muito,pois Daniela sempre foi temperamental.
E a filha ainda lhe pedia coerência,paciência e qualquer outra... ência.Mas nao tinha mais ânimo para viver e dessa forma aproveitou que a empregada estava desatenta(aliás, pediram para que esta a vigiasse) e saiu pelos fundos,com uma bolsa pequena d e viagem. Há dias ela vinha observando que o portao que dava para a outra rua estava emperrado,por falta de uso. Aos poucos ela conseguiu que ele abrisse e numa tarde que Marieta tirava um coxilo,enquanto ouvia seu rádio na cozinha. Foi para o Flamengo,onde Ana trabalhava. Esta ficou admirada com a aparência triste de sua ex patroa e amiga. As duas conversam e Joana esquece por uns momentos seus aborrecimentos.
Ana costuma ir ao cemitério para cuidar do túmulo do ex patrao,quando sua atencao vai para um homem que ela ela lembra muito bem,pois vive sempre viveu com o casal,desde que se casaram. Assim como quem nao quer nada, deixa o lugar onde está e vai até ele e ele parece tê-la reconhecido
.-Boa tarde, é a Ana? pergunta
-Sim, entao se lembra de mim,senhor Nelson?
-Claro,jamais esquecerei daquele café delicioso que a senhora me servia,com bolo d e fubá e erva-doce. E a Joana,como ela está? Meu amigo,eu sei que Deus o levou,infelizmente nao estava aqui para me despedir dele. Mas sempre que posso venho aqui e "converso" um pouco com ele. Nós nos divertíamos muito.Mas... e a Joana? Nunca mais soube dela. Tenho passado por sua casa na esperanca d e vê-la no jardim,cuidando de suas rosas.Mas... ela nao está mais. Vendeu a casa?
-Nao, está alugada. Dona Joana mora com a filha, em Jaconé,regiao dos lagos. A filha dela tem um sítio lá.
Tao longe? O que faco para vê-la? Pergunta ele.
Ana sabe que nao tem como ajudá-lo,pois conhece bem o marido de Daniela. Ela mesma nao se sente à-vontade indo lá.
-Me conte,Ana, o que aconteceu com ela, está doente?
-Nao, mais vai ficar s e continuar a viver do jeito que vive. A pior coisa que ela pôde fazer foi alugar a casa. Por sorte nao vendeu.
-Ela está com problemas financeiros? Pergunta o homem
-Nao,tem uma excelente pensao,a dela e a do marido,além do aluguel. Mas nao se sente bem na casa da filha,sabe como é parente.A filha é um doce,mas o marido e os filhos...
Mas mal sabem os dois que neste momento Joana se encontra num leito de hospital. Depois de um acalorada discusao com seu genro por causa de um dos netos,Joana deixa a casa,avisa Marieta que iria só dar umas voltas no quarteirao para refrescar a cabeca. Se pudesse,nao voltaria mais,pensa Se quiser pode alugar um pequeno apartamento,mas teme entrar em discórdia com a família. Sente-se acorrentada.Tem condicoes financeiras para se assumir,mas depende da filha,já que está sob a sua responsabilidade.Isso deixa-a nervosa. E num momento como estes,encontrá-la sentada no cemitério,perto do túmulo do marido é o mais ´óbvio.Poderia procurar Ana,mas está tem tanto o que fazer.
-Por quê você nao me levou junto,Roberto? Preciso passar por isso?
Mas uns pingos d e chuva a obriga a voltar pra casa. Atravessa a rua e ainda ouve um ranger de freios e nada mais.
Vê vultos diante de seus olhos e sem nada entender procura ouvir o que dizem,diante dela. Sente que uma mao macia toca-lhe a testa. Aos poucos a nuvem se dissipa e ela reconhece,meio surpresa sua filha,que lhe parece muito aflita.
O que eu estou fazendo aqui?
Sua filha aproxima-se mais para lhe falar,mas o médico que está junto narra o acontecido.
Fora colhida por uma motocicleta. A seriedade do acontecido foi porque ela foi jogada longe,indo bater com a cabeca num meio-fio. O rapaz da moto se desequilibrou e foi arrastado com a moto metros distante dela,por sorte estava de capacete e só raspou as pernas. Joana ficou em coma 3 semanas. Foram dias aflitos. Ao voltar a si questiona o que aconteceu,pois nao s e lembra de nada.
Mas aos poucos Joana vai se recuperando,embora sinta ainda muito desconforto. Teve muita sorte,disse-lhe o médico,pois nao sofrera danos internos no crâneo,mas sente dores d e cabeca constantes,tendo de tomar,durante muito tempo remédios para aliviar a pressao e as dores. Mas meio ano se passa depois desse fatídico dia .Seu genro,movido por sentimentos de culpa procura uma maneira de aliviar este sentimentos tentando a aproximacao,mas Joana,o tempo que esteve no hospital pensou muito em sua vida. E surpreende a familia,num domingo, aparecendo na sala com sua mala d e mao e uma "Troller"
-Que é isso,sogrinha,vai viajar? A senhora nao comentou nada. Está querendo passar uns dias na casa d e uma amiga,eu a levo,espere só um pouco.
-Nao, nao vou pra casa d e ninguém,vou pra minha casa.Enquanto estava na clínica me recuperando meu advogado tratou de tudo, nao renovei o contrato e agora estou indo.
Claro que Joana já esperava pela reacao deles,mas já havia decidido tudo.De nada adiantou sua filha chorar,implorar pra ela ficar,porque Joana sabia ser dura quando era necessário.Acreditava que mais tarde tudo voltaria ao normal. Mas estava feliz,embora nao desejasse que fosse tao doído para todos. Meu taxi deve estar vindo,acabei de ligar.
--Mas você ficará sozinha,mae?
-Nao, a Ana vai voltar pra casa.
Eles a levam até a varanda e Joana entra no carro,depois que o motorista colocou as coisas no porta-malas.
A primeira surpresa: Xandu parece que adivinhara e a espera na varanda de sua casa. Ana estava feliz demais por vê-la e ajudou-a a entrar na casa. Joana manca ainda um pouco,está fazendo fisioterapia.
É Natal e as famílias estreitam-se em harmonia,pelo menos é o que se espera.
Pra mostrar que nao tinha ressentimentos Joana passou o natal com sua familia. Desde que fora morar com ela que esta é a primeira vez que se vê a alegria estampada em seu rosto. Nada como a gente ter o comando da própria vida. Precisava acontecer alguma coisa de extraordinário,como o acidente,para que a aparência da situacao mudasse. Seu genro nunca foi tao carinhoso como agora. Aprendeu a licao. Sua filha,esta sempre fora uma criatura maravilhosa,mas apresentava sinais de submissao ao marido,coisa que Joana acha deplorável,mas nao se via no direito de opinar.Ela acabaria vendo isso por si mesma. Os netos,estes também aprenderam a sua licao.
Entrada de ano novo na praia
O novo aspecto de vida de Joana apresentava a cada dia uma grande surpresa.Nao fosse a saudade imensa que sentia de seu marido,diria que agora sua felicidade se completara. Nao via Ana como sua servical e sim como uma grande companheira,confindente,amiga mesmo. Ela sempre estivera do seu lado,embora separada.Xandu,seu fiel amigo,como os animais aceitara o rumo que os humanos impuzeram-lhe.Por sorte ficara na casa do vizinho,mas que voltara,sem cerimônias,pois era ali a sua casa. Ana nao tem familia.Nunca se casou,nao teve filhos,logo,é parte da casa e por causa disso arruma uma bela mesa para comemorar a entrada do ano novo. A toalha branca de sempre,os casticais d e prata,utensílios que Joana usava só em ocasioes especiais. Ana guardara tudo num galpao nos fundos do terreno,assim como alguns móveis.Joana mandara fazer um vestido em sua costureira,um longo branco,de voal,esvoacante.A pretencao era ir a praia mais simples e antes da meia noite estar em casa diante de seu piano,vestida dessa forma,como sempre fora no tempo de seu marido.
Diante das ondas que banham seus pés Joana joga uma rosa branca,colhida de seu jardim e deixa que seus pensamentos voem para bem longe em seu passado. O dia de sua formatura,o momento em que esteve apertada entre os bracos de seus pais,os olhares felizes de seus colegas de classe. Seu casamento com Roberto e o nascimento de sua filha. E neste momento lhe vem a mente a música que tocara para ele, quando embalava a menina entre seus bracos. Ele dancava pela sala com o embrulhinho cor d e rosa,orgulhoso como um soldado que veio d a guerra, apertando contra o peito uma medalha d e ouro. Lágrimas escorrem pelos eu rosto . Olha o relógio, falta meia hora para o grande momento,o nascimento d e um novo ano. Ruma pra casa e corre para se vestir.
Está linda. Senta-se ao piano e toca a música preferida de seu amado,"Roberta",de Pepino de Capri. Entrega-se às lembrancas. Neste momento sente um leve toque num de seus ombros. É como se o passado viesse para este momento,quando ao terminar d e tocar, ele a tomasse para dancar. VIra-se e s e vê diante de Nelson.-Nelson? Você aqui? Pergunta,surpresa,achando que estava mesmo sonhando.
Ana os serve e se senta à mesa, à pedido de Joana È meia -noite,momento para celebrarem um novo ano que surge.
-Só ainda nao me disse como tudo aconteceu,Nelson,pergunta Joana,ainda surpresa.
Ana me falou do acidente,assim que eu cheguei. Eu a encontrei no cemitério e ela me deu o telefone d e onde trabalha. Tive d e voltar pra Itália,você sabe,tenho com meu filho uma firma. Pensei em ir visitá-la no hospital,mas você recebera alta e eu nao quis incomodar sua familia.
_Doan Joana,diz Ana,me desculpe. Tive d e falar sobre a sua situacao com o seu genro. Nao havia necessidade do senhor Nelson ir lá e...
-Fez bem,Ana. Afinal,somos amigas e eu sempre lhe contei tudo.
-... e assim, continua Nelson, já era a hora de cumprir a promessa que fiz ao meu amigo.
-Promessa? Nao estou entendedno nada,Nelson. Aliás, você sempre foi complicado...nunca s esabe o que s e passa nessa cabeca.brinca.
Ana arruma um jeito de ir a cozinha e os dois ficam sozinhos.
-Uma vez vocês brigaram e o Roberto foi me procurar.Estava muito chateado. Entao fomos a um bar e bebemos tanto que nao sabíamos mais como voltarmos.Ele deixou o carro no bar,nenhum d e nós tinha condicoes de dirigir. Passamos a noite na rua,aliás... a gente nunca soube como fomos parar na cadeia. Nao havíamos feito nada d e ruim. Mas pela manha,já eram sete da manha o delegado nos disse,quando nos soltaram,que fizerama isso para nos proteger,pois tínhamos dinheiro e documentos nos bolsos. Até hoje quando lembro disso morro d erir.Como é que nao me lembro de nada.
Joana ri muito. Como este s dois aprontaram,pensa.
-Eu me lembro porque brigamos,inicia ela.Era por causa d e meu decote. Roberto achava que estava muito "saliente",esta foi a palavra que ele falou. E eu achava que nao. Entao preferi nao ir que ter d e fazer o que ele queria.
-Sim, ele disse s e queixava de seu temperamento.
Nelson toca uma das maos de Joana,profundamente emocionado com as lembrancas.
-Aí,bêbados ainda ele me fêz prometer que caso ele fosse primeiro que eu nao deixasse você ir com ninguém.Que eu me casasse com você e a protegesse para sempre.
-Ah,entao esta foi a tal promessa.
-E agora,querida Joana, o que você acha disso? Tenho alguma chance?
Os olhos brilhantes de Joana foi a resposta e um beijo selou esta uniao,sendo percebido por Ana que chora de felicidade. Neste momento,imagina-se que Roberto está ali perto deles, feliz por saber que a única mulher que amou em sua vida nao estará mais infeliz.
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