quinta-feira, 23 de junho de 2011

AMOR NA MATURIDADE

Joana é viúva,tem 71 anos.Sua familia( filha,genro e netos) conseguiu convencê-la de morar com eles e alugar sua casa ,por sinal,uma bela e confortável casa no Leblon.Como todo início tudo é novidade.Para sua comodidade sua filha lhe deu um quarto no andar de baixo do sobrado porque a porta se abre para um jardim onde ela pode cultivar rosas,que é sua paixao.
Com seu marido viveu momentos maravilhosos,conhecendo parte da Europa,Ásia e África.Fêz as três coisas importantes em sua vida: plantou árvores (uma delas uma cerejeira japoneza,que tem em sua casa no Leblon,presente de uma familia japonesa,que esteve em sua casa,fêz uma filha e escreveu um livro,sua passagem pela Africa,Namíbia,onde conheceu sua cultura,sua arte,sua gente.
 Ficou viúva aos 62 anos,mas aprendeu com o seu companheiro de vida que viver era importante .Muito ativa,sentia-se como que acorrentada,porque nao lhe permitiam viver sua vida em liberdade,como sempre foi. Nao tinham tempo pra ela e sua vida se rezumia numa eternaespera  por momentos raros e rápidos. Com seu marido bastava ela se arrumar e ele já pegava seu inseparável chapéu e lá iam para fazer qualquer coisa, caminhar, tomar um sorvete,fazer compras.  Joana até compreendia que nao tinham tempo,devido ao trabalho e outras tarefas. Mas nao significava que deveria aceitar isso como um ponto final em sua vida.Era saudável,disposta,mas obrigavam-na a se sentir velha ,embora seu interior nao concordasse. Seus  passeios eram a igreja dominical(era católica) e compras,mas tinha sempre alguém à tiracolo ( um dos netos,o Samuel,um serzinho resmungao e impaciente). Isso já estava mexendo com seus nervos.Sempre foi muito calma,passiva,mas tudo tem um limite, nao é verdade?

Joana entrou em greve.

Causou o caos na família.Passou a ficar mais tempo em seu quarto,aparecendo à mesa para comer só quando insistiam. Perdeu o gôsto pelas rosas e por outras coisas que nao vale a pena contar. Era o fim da antiga deslumbrante senhora que gostava de passear pela praia com o seu viralatas, que seu marido achara na rua, o Xandu,tomar sorvetes,tomar água d e coco. Tudo se rezumira em uma cadeira de balancos onde seus pensamentos iam direto ao passado, até que adormecia e Marieta, a empregada vinha acordá-la,com medo de que ela pegasse uma corrente de ar e se resfriasse.Era neste momento que Joana sentia-se em casa,pois Marieta a compreendia mais que sua própria filha. Mas a gôta dágua foi quando ouviu seu genro discutir com sua filha,julgando que ela estivesse dormindo.
- Quantos anos sua mae está conosco e quantas vêzes ela vem à mesa  fazer as refeicoes com a gente? Ela só faz o que quer. Agora achou de comer em seu quarto. Isso eu nao vou permitir mais. Nao permito que os meninos facam, logo...Fale com ela ou prefere que eu mesma fale? Pedrinho disse que vai pra casa dos meus pais,porque lá ele tem liberdade para ouvir som alto.
- Ele nao precisa fazer isso,diz Joana saindo d e onde estava . Eu sairei,assim que arrumar um lugar para ficar. Lembre-se,eu nao queria vir pra cá.Se tem alguém que perdeu a liberdade,este sou eu,porque fui obrigada a abandonar a minha casa para viver aqui como uma velha inútil.Ao Pedrinho eu pedi duas vêzes que ele abaixasse o volume,o quarto dele fica sobre o meu e ele aumentou mais ainda. O Samuel quando vocês o mandam sair comigo,o faz com má vontade e me deixa envergonhada nos lugares onde andamos. Eu nao reclamo de nada.Só quero que lembre  d e uma coisa,meu genro,que quando vocês se casaram,vocês nao foram para o sítio dos seus pais,porque ficava difícil quanto ao seu trabalho. Eu ofereci a minha casa,o melhor quarto e foram tratados com  carinho e respeito. E o que eu tenho na casa d e vocês?Vou procurar um asilo,que eu acho que viverei melhor. 
E virando-se para a filha,diz:
-Se eu soubesse que teria de passar por tudo isso. Aluguei a minha casa. Ana me fazia companhia,agora trabalha em outra casa. Meu cachorro está na casa da vizinha,porque aqui nao posso tê-lo e tudo para quê? Sou velha,mas nao estou morta.

Claro,ficava um ambiente horrível e mais um motivo para que Joana rejeitasse a comida.Impossível engolir ,tendo um nó na garganta. 
O pior de tudo era o sentimento d e culpa que ela sentia depois de tudo isso,porque sua filha e o marido se desentendiam depois, já que na frente dela,ela nao aumentava a voz,era submissa.Coisa que lamentava muito,pois Daniela sempre foi temperamental.
E a filha ainda lhe pedia coerência,paciência e qualquer outra... ência.Mas  nao tinha mais ânimo para viver e dessa forma aproveitou que a empregada estava desatenta(aliás, pediram para que esta a vigiasse) e saiu pelos fundos,com uma bolsa pequena d e viagem. Há dias ela vinha observando que o portao que dava para a outra rua estava emperrado,por falta de uso. Aos poucos ela conseguiu que ele abrisse e numa tarde que Marieta tirava um coxilo,enquanto ouvia seu rádio na cozinha. Foi para o Flamengo,onde Ana trabalhava. Esta ficou admirada com a aparência triste de sua ex patroa e amiga. As duas conversam e Joana esquece por uns momentos seus aborrecimentos.

Ana costuma ir ao cemitério para cuidar do túmulo do ex patrao,quando sua atencao vai para um homem que ela ela lembra muito bem,pois vive sempre viveu com o casal,desde que se casaram. Assim como quem nao quer nada, deixa o lugar onde está e vai até ele e ele parece tê-la reconhecido
.-Boa tarde, é a Ana? pergunta
-Sim, entao se lembra de mim,senhor Nelson?
-Claro,jamais esquecerei daquele café delicioso que a senhora me servia,com bolo d e fubá e erva-doce. E a Joana,como ela está? Meu amigo,eu sei que Deus o levou,infelizmente nao estava aqui para me despedir dele. Mas sempre que posso venho aqui e "converso" um pouco com ele. Nós nos divertíamos muito.Mas... e a Joana? Nunca mais soube dela. Tenho passado por sua casa na esperanca d e vê-la no jardim,cuidando de suas rosas.Mas... ela nao está mais. Vendeu a casa? 
-Nao, está alugada. Dona Joana mora com a filha, em Jaconé,regiao dos lagos. A filha dela tem um sítio lá.

Tao longe? O que faco para vê-la? Pergunta ele.
Ana sabe que nao tem como ajudá-lo,pois conhece bem o marido de Daniela. Ela mesma nao se sente à-vontade indo lá. 
-Me conte,Ana, o que aconteceu com ela, está doente?
-Nao, mais vai ficar s e continuar a viver do jeito que vive. A pior coisa que ela pôde fazer foi alugar a casa. Por sorte nao vendeu.
-Ela está com problemas financeiros? Pergunta o homem
-Nao,tem uma excelente pensao,a dela e a do marido,além do aluguel. Mas nao se sente bem na casa da filha,sabe como é parente.A filha é um doce,mas o marido e os filhos...


Mas mal sabem os dois que neste momento Joana se encontra num leito de hospital. Depois de um acalorada discusao com seu genro por causa de um dos netos,Joana deixa a casa,avisa Marieta que iria só dar umas voltas no quarteirao para refrescar a cabeca. Se pudesse,nao voltaria mais,pensa Se quiser pode alugar um pequeno apartamento,mas teme entrar em discórdia com a família. Sente-se acorrentada.Tem condicoes financeiras para se assumir,mas depende da filha,já que  está sob a sua responsabilidade.Isso deixa-a nervosa. E num momento como estes,encontrá-la sentada no cemitério,perto do túmulo do marido é o mais ´óbvio.Poderia procurar Ana,mas está tem tanto o que fazer.

-Por quê você nao me levou junto,Roberto? Preciso passar por isso?
Mas uns pingos d e chuva a obriga a voltar pra casa. Atravessa a rua e ainda ouve um ranger de freios e nada mais.

Vê vultos diante de seus olhos e sem nada entender procura ouvir  o que dizem,diante dela. Sente que uma mao macia toca-lhe a testa. Aos poucos a nuvem se dissipa e ela reconhece,meio surpresa sua filha,que lhe parece muito aflita.
O que eu estou fazendo aqui?
Sua filha aproxima-se mais para lhe falar,mas o médico que está junto narra o acontecido.
Fora colhida por uma motocicleta. A seriedade do acontecido foi porque ela foi jogada longe,indo bater com a cabeca num  meio-fio. O rapaz da moto se desequilibrou e foi arrastado com a moto metros distante dela,por sorte estava de capacete e só raspou as pernas. Joana  ficou em coma 3 semanas. Foram dias aflitos. Ao voltar a si questiona o que aconteceu,pois nao s e lembra de nada. 
Mas aos poucos Joana vai se recuperando,embora sinta ainda muito desconforto. Teve muita sorte,disse-lhe o médico,pois nao sofrera danos  internos no crâneo,mas sente dores d e cabeca constantes,tendo de tomar,durante muito tempo remédios para aliviar a pressao e as dores. Mas meio ano se passa depois desse fatídico dia .Seu genro,movido por sentimentos de culpa procura uma maneira de aliviar este sentimentos tentando a aproximacao,mas Joana,o tempo que esteve no hospital pensou muito em sua vida. E surpreende a familia,num domingo, aparecendo na sala com sua mala d e mao e uma "Troller"

-Que é isso,sogrinha,vai viajar? A senhora nao comentou nada. Está querendo passar uns dias na casa d e uma amiga,eu a levo,espere só um pouco. 
-Nao, nao vou pra casa d e ninguém,vou pra minha casa.Enquanto estava na clínica me recuperando meu advogado tratou de tudo, nao renovei o contrato e agora estou indo.

Claro que Joana já esperava pela reacao deles,mas já havia decidido tudo.De nada adiantou sua filha chorar,implorar pra ela ficar,porque Joana sabia ser dura quando era necessário.Acreditava que mais tarde tudo voltaria ao normal. Mas estava feliz,embora nao desejasse que fosse tao doído para todos. Meu taxi deve estar vindo,acabei de ligar. 
--Mas você ficará sozinha,mae?
-Nao, a Ana vai voltar pra casa.

Eles a levam até a varanda e Joana entra no carro,depois que o motorista colocou as coisas no porta-malas. 

A primeira surpresa: Xandu parece que adivinhara e a espera  na varanda de sua casa. Ana estava feliz demais por vê-la e ajudou-a a entrar na casa. Joana manca ainda um pouco,está fazendo fisioterapia. 


 É Natal e as famílias estreitam-se em harmonia,pelo menos é o que se espera.

Pra mostrar que nao tinha ressentimentos Joana passou o natal com sua familia. Desde que fora morar com ela que esta é a primeira vez que se vê a alegria estampada em seu rosto. Nada como a gente ter o comando da  própria vida. Precisava acontecer alguma coisa de extraordinário,como o acidente,para que a aparência da situacao mudasse. Seu genro nunca foi tao carinhoso como agora. Aprendeu a licao. Sua filha,esta sempre fora uma criatura maravilhosa,mas apresentava sinais de submissao ao marido,coisa que Joana acha deplorável,mas nao se via no direito de opinar.Ela acabaria vendo isso por si mesma. Os netos,estes também aprenderam a sua licao. 

Entrada de ano novo na praia

O novo aspecto de vida de Joana apresentava a cada dia uma grande surpresa.Nao fosse a saudade imensa que sentia de seu marido,diria que agora sua felicidade se completara. Nao via Ana como sua servical e sim como uma grande companheira,confindente,amiga mesmo. Ela sempre estivera do seu lado,embora separada.Xandu,seu fiel amigo,como os animais aceitara o rumo que os humanos impuzeram-lhe.Por sorte ficara na casa do vizinho,mas que voltara,sem cerimônias,pois era ali a sua casa. Ana nao tem familia.Nunca se casou,nao teve filhos,logo,é parte da casa e por causa disso arruma uma bela mesa para comemorar a entrada do ano novo. A toalha branca de sempre,os casticais d e prata,utensílios que Joana usava só em ocasioes especiais. Ana guardara tudo num galpao nos fundos do terreno,assim como alguns móveis.Joana mandara fazer um vestido em sua costureira,um longo branco,de voal,esvoacante.A pretencao era ir a praia mais simples e antes da meia noite estar em casa diante de seu piano,vestida dessa forma,como sempre fora no tempo de seu marido.
Diante das ondas que banham seus pés Joana joga uma rosa branca,colhida de seu jardim e deixa que seus pensamentos voem para bem longe em  seu passado. O dia de sua formatura,o momento em que esteve apertada entre os bracos de seus pais,os olhares felizes de seus colegas de classe. Seu casamento com Roberto e o nascimento de sua filha. E neste momento lhe vem a mente a música que tocara para ele, quando embalava a menina entre seus bracos. Ele dancava pela sala com o embrulhinho cor d e rosa,orgulhoso como um soldado que veio d a guerra, apertando contra o peito uma medalha d e ouro. Lágrimas escorrem pelos eu rosto . Olha o relógio, falta meia hora para o grande momento,o nascimento d e um novo ano. Ruma pra casa e corre para se vestir.

 Está linda. Senta-se ao piano e toca a música preferida de seu amado,"Roberta",de Pepino de Capri. Entrega-se às lembrancas. Neste momento sente um leve toque num de seus ombros. É como se o passado viesse para este momento,quando ao terminar d e tocar, ele a tomasse para dancar. VIra-se e s e vê diante de Nelson.-Nelson? Você aqui? Pergunta,surpresa,achando que estava mesmo sonhando.

Ana os serve e se senta à mesa, à pedido de Joana  È meia -noite,momento para celebrarem  um novo ano  que surge. 
-Só ainda nao me disse como tudo aconteceu,Nelson,pergunta Joana,ainda surpresa. 

Ana me falou do acidente,assim que eu cheguei. Eu a encontrei no cemitério e ela me deu o telefone d e onde trabalha. Tive d e voltar pra Itália,você sabe,tenho com meu filho uma firma. Pensei em ir visitá-la no hospital,mas você recebera alta e eu nao quis incomodar sua familia.
_Doan Joana,diz Ana,me desculpe. Tive d e falar sobre a sua situacao com o seu genro. Nao havia necessidade do senhor Nelson ir lá e...
-Fez bem,Ana. Afinal,somos amigas e eu sempre lhe contei tudo. 

-... e assim, continua Nelson, já era a hora de cumprir a promessa que fiz ao meu amigo.
-Promessa? Nao estou entendedno nada,Nelson. Aliás, você sempre foi complicado...nunca s esabe o que s e passa nessa cabeca.brinca.

Ana arruma um jeito de ir a cozinha e os dois ficam sozinhos.

-Uma vez vocês brigaram e o Roberto foi me procurar.Estava muito chateado. Entao fomos a um bar e bebemos tanto que nao sabíamos mais como voltarmos.Ele deixou o carro no bar,nenhum d e nós tinha condicoes de dirigir. Passamos a noite na rua,aliás... a gente nunca soube como fomos parar na cadeia. Nao havíamos feito nada d e ruim. Mas pela manha,já eram sete da manha o delegado nos disse,quando nos soltaram,que fizerama isso para nos proteger,pois tínhamos dinheiro e documentos nos bolsos. Até hoje quando lembro disso morro d erir.Como é que nao me lembro de nada.

Joana ri muito. Como este s dois aprontaram,pensa.
-Eu me lembro porque brigamos,inicia ela.Era por causa d e meu decote. Roberto achava que estava muito "saliente",esta foi a palavra que ele falou. E eu achava que nao. Entao preferi nao ir que ter d e fazer o que ele queria. 
-Sim, ele disse s e queixava de seu temperamento.

Nelson toca uma das maos de Joana,profundamente emocionado com as lembrancas. 
-Aí,bêbados ainda ele me fêz prometer que caso ele fosse primeiro que eu nao deixasse você ir com ninguém.Que eu me casasse com você e a protegesse para sempre.
-Ah,entao esta foi a tal promessa.
-E agora,querida Joana, o que você acha disso? Tenho alguma chance?
Os olhos brilhantes de Joana foi a resposta e um beijo selou esta uniao,sendo percebido por Ana que chora de felicidade. Neste momento,imagina-se que Roberto está ali perto deles, feliz por saber que a única mulher que amou em sua vida nao estará mais infeliz. 



sábado, 18 de junho de 2011

Os pássaros voam pra longe do ninho

Adormecera com a janela aberta,sem nem ao menos preocupar-se com o mau tempo anunciado na televisao,tao absorta estava no livro que estava lendo,um romance da Rosamunde Pilcher,uma escritora inglesa.Acordou pela madrugada sentindo-se gelada e com uma sensacao de fome. Nao comera o suficiente no jantar. Joga o pegnoir sobre o corpo,enfia os pés nas polainas e desce os degraus que a levam para o andar inferior.Olha a sua volta e nao sente mais orgulho pela cozinha americana que instalou.Custou caro,mas valeu a pena,pelo menos no início.Se adivinhasse que...
Abre a geladeira e pega um pedaco de frango,esquenta no microondas e faz um sanduíche. Come com um chá forte de hortela. Nao sabe explicar porque nao consegue comer até o final. Emagrecera oito quilos nos últimos três meses.Claro que em outra situacao estaria feliz com isso. Sempre fora esportiva,participou de maratonas,fêz natacao. Com 48 anos Pamela possui um corpo bonito,sente orgulho por ser elogiada pelos conhecidos quando passea  com as amigas.Veste-se como jovem, exigência de Sandra. De costas parece uma menina ainda. Com sua filha dizem que sao irmas. Pamela casou-se cedo, com seu primeiro e grande amor,treze anos  mais velho.Era capitao de navio. Mal completara 20 anos e já tinha os dois bebês gêmeos,Renato e Sandra. Pamela era invejada pela maioria de suas amigas,por ter tido a sorte de "se casar bem",morar numa bela mansao defronte a um lago,ter seu carro próprio e nao se preocupar em ganhar seu próprio sustento.

 Sentada na cadeira,seus pensamentos voam como folhas secas soltas no ar. Um filme de curta duracao passa em sua mente,trazendo-lhe lágrimas. Aliás, o que mais tem feito  é chorar. Volta pra cama,ainda sao 4 horas da manha. Lembra de fechar a janela e senta-se à cabeceira,mas nao volta à leitura. Pensa em sua própria vida. Muita gente questionou quando a filha de uma faxineira casou-se numa igreja frequentada por gente rica.Pamela nasceu com muita sorte. Todavia isso teve um tempo,como tudo na vida. Quando as criancas tinham 15 anos o marido morre num acidente d e carro,justamente no dia do aniversário de casamento dos dois.Ele viera direto para a festa organizada pelos amigos,num clube local. Desde este dia Pamela perdeu o sabor da vida. Poderia ter s e casado de novo,mas nao quis outro homem sob o mesmo teto que seus filhos.Viveu,unicamente para eles e sua maezinha que morava com ela desde que os filhos nasceram e que veio a falecer um tempo depois.

Seus gêmeos eram a sua única alegria e foram criados numa gaiola dourada,freqüentando os melhores colégios... mas um dia nao percebeu que a porta da gaiola se abrira e os pássaros escapam,seguindo um voo para terras distantes. Doeu tanto quanto a partida de seu amado.Pensou que estivesse preparada para mais uma despedida,mas era frágil demais. Percebera que naquela semana seus filhos estavam tensos,mas como estavam estudando,julgara ser isso o motivo,tanto que evitava importuná-los. E assim, sem querer,ouve uma conversa dos dois,quando chega das compras.


É a nossa vida,Renato,diz Sandra. Nao podemos perder esta oportunidade. Bolas, já somos maiores de idade,decidimos o que fazer d e nossas vidas.
-Mas me dói falar isso com ela.Ela só tem a nós.
-Tem nada. E as amigas? Na verdade ela nao para em casa. Está sempre com as amigas.
-Nao sei, nao precisamos responder logo.
-Mas quando chegar a hora,diz Sandra,eu vou,mesmo sem você. Nao quero levar a vida que ela sempre levou.Tenho planos na vida.


Pamela ouvira tudo isso e custou-lhe esconder deles quando fora surpreendida chegando. Fingiu muito bem,mas deu vazao á sua tristeza quando ia para a cama.
Na verdade,uma das melhores coisas que lhe aconteceu foi que sua irma,que ela ajudou muito quando a mae falecera, que se separara duas vêzes tentara a sorte indo para os Estados Unidos trabalhar como cozinheira na casa de sua madrinha,que mora  há muitos anos lá. Mariana acabou por conhecer um homem financeiramente estabilizado na vida e casou-se. Pamela podia já dormir em paz. As duas se comunicavam por internet e ficou sabendo que o marido herdara a empresa do pai. Era madrinha dos gêmeos,adorava-os e também estava sempre em contato com eles. Ela os convidara para trabalhar na empresa do marido,ganhando um bom salário. Pamela ouvira tudo e ao mesmo tempo que ficava feliz por saber que seus filhos,profissionalmente seguiriam um bom caminho,sob a protecao do cunhado,que lhes tinha estima,sentia um vazio muito grande dentro do peito.Mas jamais ousaria impedí-los.

Os filhos evitavam-na, pois nao sabiam como iniciar o assunto,mas era chegada a hora de se tocar  nele e isso foi feito durante o jantar. Pamela estava preparada,pelo menos achava que estava.

-Mae,a gente vem todos anos nas férias. É o nosso  primeiro emprego e vamos ganhar um bom salário. Renato vai trabalhar direto n a sala do tio.Eu ficarei na recepcao,mas conquistarei meu lugar.Diz Sandra.
Renato nao fala nada. Dos dois ele é o mais aproximado da mae,e vê a grande tristeza em seus olhos. Pamela engole o nó  que se fêz em sua garganta e mexe na comida enquanto Sandra fala.Ela está entusiasmada.Nao percebeu o quanto sua mae está desolada.
Em sua cama Pamela afunda o rosto no travesseiro e libera as lágrimas com os solucos profundos que fazem seu peito doer. Volta ao momento em que soube que estava grávida.Olhando sua barriga já imaginava o serzinho que acolhia e quando o médico anunciou que eram dois,pensou nao agüentar de alegria. Jamais ousou imaginar,um minuto que fosse, como é difícil o papel de ser  mae.


Eles já se foram,pensa Pamela em sua cama. Mal pode lembrar desse dia. Estava frio e chuvoso. O céu tao negro que parecia noite e no entanto eram ainda 5 horas da tarde. Ela ajudou-os a arrumar as malas,levou-os ao aeroporto onde seus amigos os esperavam para a despedida. Para disfarcar vestiu seu costume preferido e seu casaco vermelho.Eles adoravam quando ela se esmerava. Nao haveria de querer fazer feio. Os olhos caídos e sem brilho ficaram disfarcados com maquillagem,feita por Janete,que era mestra nisso. Quando anunciaram que deveriam já entrar,Pamela sentiu que suas pernas nao a obedeciam. Sandra era tao diferente de Renato. Estava o tempo todo com os amigos,tirando fotos. Renato tinha-a em seus bracos.Por ser muito alto,que nem o pai, tinha seu rosto no meio de seu peito.Pamela pode ainda ouvir as batidas fortes de seu coracao. Ouve ainda o eco de sua voz quando lhe falou no ouvido: _Torci para que a Sandra desistisse,mae,mas ela pensa que para nós é um impulso grande. Mas nao queria deixá-la.Vou sentir muito a sua falta.
-Bobagem,filho, anima-o.Acha que se eu estivesse no lugar d e vocês nao iria? Imagine. Nao se preocupe. Janete,você conhece,combinou d e viajarmos,já tem tempo.Só nao fui ainda porque nao queria deixá-los sós.Mas vou já falar com ela.
- Viajar,mae? Que bom! Assim fica mais fácil pra mim. Isso mesmo, mae,viva a sua vida. Está na hora d e arranjar um namorado.Quanto tempo você está sozinha?
-Namorado? Nao. Vou viver sim, mas do jeito que eu quero e sem "trave".


Pamela vê os filhos se afastando devagar, até que somem.Pensa que vai morrer.
O adeus é como uma janela fechando em nosso  rosto, está só agora. Nao se preocupa com as pessoas que passam. Chora torrencialmente. Sente-se como no vácuo.Por quê tem de ser assim? As dores que ela sentiu para parir seus filhos,as expectativas,as noites insones,isso nao conta? E agora eles vao preencher a vida de outros. E ela?
Nao percebe que num canto alguém a observa. É Janete que sabia o quanto seria difícil este momento. Quando a vê, Pamela se entrega a um choro convulsivo,obrigando a outra levá-la dali. As duas passeiam ante s de irem para o estacionamento. Pamela desabafa.

Janete era sua melhor amiga ou quem sabe, a única. E no último aniversário lhe dera um livro de auto-ajuda que pouco leu e se leu,nao assimilou nada porque nunca deu importância para isso .Acabou d e crer que nao sabia lidar com a separacao. Tinha só 5 anos quando seu pai faleceu vítima de uma doenca incurável,nao lembra se sofreu,mas sentia nao ter um pai,pois sua mae nao se casou mais. Com a de seu marido pareceu que o mundo ia acabar,entrou em depressao profunda ,precisando d e acompanhamento psicológico. Com sua mae, que morreu em seus bracos foi uma dor longa,que atrapalhou sua vida em muita coisa.Vendeu seu primeiro carro e um terreno numa regiao montanhosa(que chora até hoje),para pagar as dívidas que fizera com a doenca dela. O que lamenta nao foi o dinheiro gasto e sim porque nao conseguiu salvá-la. Agora seus filhotes deixam o ninho para novas oportunidades. Será que nasceu para ser só? Lembra do livro que pouco lera e abre,por acaso, uma das páginas e um trecho  vem à calhar. Ele lhe diz o que precisa ouvir. Dorme na esperanca de dias melhores,como diz o trecho.


Já faz meio ano que os gêmeos lhe deixaram,obviamente,mantendo contato quase que diário.Estao felizes,embora saudosos. Estao morando ainda com a tia,mas pensam que até o final do ano poderao alugar um apartamento para os dois.Seu cunhado é um sujeito generoso,simpático,mas meio ultrapassado.Nao permite que os sobrinhos recebam amigos em sua casa,pelo menos para festas. Mas fora isso,tudo está bem por lá.Ganham seu salário,fazem cursos,aperfeicoam o idioma... Pamela acha que é hora de mudar e tem em Janete sua aliada.Janete tem 50 anos,mas tem uma mente jovial,adora dancar,viajar,paquerar . E assim, pela manha Pamela é quem procura por Janete,na academia ond e faz ginástica. As duas se encontram na cantina do mesmo e conversam sobre suas vidas.
- Já pensou em se casar d e novo,pergunta esta à Pamela?
-Jamais.Nenhum homem entra em minha casa.Fui feliz com meu marido até o seu último dia. Nao acho que conseguirei viver com um outro sob o mesmo teto ond e foi feliz com o pai de seus filhos.

-Muito radical, amiga. Você é ainda jovem,tem direito de ser feliz.
-Sei disso, o mesmo eu digo pra você. Mas acho que posso ser feliz sem relacionamentos sérios. Outra coisa,penso em viajar,sei lá,pra qualquer lugar.Primeiro quero conhecer o nordeste  do Brasil e depois a Itália.Andei navegando pela internet e vi o Jardim dos Lagos,lindo! Quero conhecer as regioes por lá. Mariana foi à Veneza,à Paris e agora com as criancas foi à Austrália. Eles virao passar o natal comigo e no ano que vem vou lá,você vai comigo.
-Sério?
-Claro,penso nestas viagens com você. Tô meio sem grana. Pensei até em arrumar um emprego.Esta casa é muito grande,muita despesa ... mas nao penso em vender,só em caso de grande necessidade. Pensei em alugar para uma empresa e morar num apartamentinho.Mas nao é tao fácil assim,você sabe.


Passado um tempo Pamela,que aos poucos está se habituando a viver sozinha, faz jogging no quarteirao onde   mora,quando seu celular toca. Arfejante senta-se num banco e ouve a voz de Janete. Nao esperava outra pessoa.Ela a convida para saírem. Vao a um barzinho que as duas conhecem.
-Menina,tive uma idéia maravilhosa,diz Janete pedindo um vinho para comemorar a idéia,sem nem mesmo saber se será aprovada.
-Pelo jeito deve ser muito boa. Arranjou um namorado,vai casar e vai me abandonar. Hum,já estou acostumada a ficar só.

-Nossa, porque você nao escreve um conto, muito melodramática. Quer um lenco?brinca Janete.
-Fala aí da sua idéia. E pare de falar besteira.

-Ok, é uma idéia que eu tive,mas pra você.
-Nao vai insistir pra que eu "me arrume",né? Quando eu achar que devo, eu arrumo.
-Você está mal humorada?Sao os hormônios,nao é?
-Fala,tô fazendo hora contigo.
-Tô feliz porque estou vendo que você está sorrindo,diz Janete. Nao suportava mais vê-la pra baixo.

-Cansei, amiga. Meus filhos estao bem,estao felizes. Preciso viver a minha vida.
-Pois bem, se você s e casar, eu me caso também. Mas enquanto estamos soltas e livres,podemos fazer coisas interessantes. Sabe qual é a idéia?
-Janete,estamos aqui há 45 minutos e você só está "embromando".Fala logo. Se eu achar ruim serei sincera,sempre fui,nao é? Fale logo.

-Muito bem. Você tem uma mansao com 5 quartos. Se perde dentro dela e perde dinheiro. Disse que está atrasada com a luz e o caseiro. Ofereci ajuda e você nao aceitou.
-É. Já vivi momentos bons,financeiramente falando. Mas hoje em dia as coisas nao sao mais como antigamente. A pensao do meu marido tem dado só para as despesas, paguei os três últimos impostos. Penso em arrumar um emprego,mas nao me formei em nada. Fiz o científico e me casei. 

-Esse foi o seu mal.Mas passou. Entao pensei que você poderia fazer no seu salao d e festas,que você nem usa um restaurante e alugar os 4 quartos restantes. Seus filhos,quando voltarem na certa estarao casados . -Pense nesta idéia e me fale. Tenho capital para investir,poderemos ser sócias. Minha empregada cozinha muito bem. A sua caseira também. Dou-lhe  um mes para decidir. Mas antes disso vamos nos aventurar numa viagem longa.
Pamela apegou-se aos livros de auto-ajuda,aluga filmes e aprende a viver sua solidao d e forma criativa. Claro que quando a saudade aperta chora muito,nao come... tem tendência para fechar a boca quando está triste,deprimida,mas escolheu viver.Tem certeza absoluta de que foi boa filha. No segundo ano de casada sua mae veio morar com ela para ajudá-la a cuidar dos gêmeos. Fora o trabalho,seu marido sempre teve a sua companhia,para tudo.Em casa dividiam as tarefas,cuidavam os dois do jardim. Nao se sentia culpada por nada.Transportou-se muitas vêzes para o mundo de seus filhos na ânsia d e compreendê-los mais. 

Deixou que eles voassem para longe porque eles desejaram isso.Na certa seu marido e seus pais a aprovavam nessa mudanca de vida. E seus filhos aprovaram a ideía de Janete. Pamela agora perdia o sono,mas nao de tristeza e sim d e ansiedade. Decide experimentar a idéia d e Janete.Aceita sua ajuda para colocar as contas em dia e pagá-la quando o restaurante estiver pronto e em movimento. Estao neste momento,as duas,numa praia do Sergipe,curtindo o sol e as ondas claras e mornas. 
Com certeza, assim que voltarem,vao colocar a idéia  do restaurante em prática.Por enquanto o que as fazem é "viver intensamente".Namorar intensamente,trabalhar intensamente,quando chegar a hora.

Pamela e Janete estao animadíssimas. Se imaginassem que uma viagem fosse ajudar tanto,teriam feito há mais tempo e mais vêzes. Estava decidido que nao iriam abrir um restaurante e sim uma Casa de Chá.Elas tiveram esta idéia quando desceram a rua onde ficava o hotel ond e ficaram hospedadas. As duas sao criativas,mas queriam um tipo de negócio que fosse muito atraente.Nao queriam algo muito grande,pois a idéia era o aconchego,um local onde as pessoas se sentissem tao bem que teriam vontade de voltar. E depois d e um longo passeio,cansadas e famintas entram num local.Nao tinha cara de bar,nem d e restaurante. A rua ficava num plano mais alto.A fachada  rústica,quase que uma ruína(isso elas nao adotaram). Um balcao fechado onde apenas uma pessoa lidava com o caixa.Quatro degraus e um sala grande dividida por uma parede com arco decorada por hera,que caminhava por toda ela. Do lado esquerdo quadros bem simples. A parede era branca. Logo no final do último degrau ficava uma mesa redonda onde elas ficaram e enquanto aguardavam a sopa-creme de brócolis,observavam tudo à volta. Janete,mais ousada anotava todos os detalhes. Pamela foi ao banheiro,que ficava do lado esquerdo de sua mesa. Uma porta rústica que abria-se para um corredor e dois banheiros apenas,mas tao lindinhos,decorados com vasos de plantas. Levou sua máquina digital e tirou fotos para ter uma idéia. Assim que voltou viu que Janete já estava na outra parte,depois do arco. Ali tinham outras mesas dispostas em círculos. Num canto d e uma parede objetos d e cerâmica e cada um com um cartaozinho e o nome,talvez da pessoa que fêz a peca. Estavam tao eufóricas que poderiam ir embora naquela hora,a fim d e montarem o tao sonhado negócio.O garcon,um rapaz muito simpatico,quando trouxe o pedido delas fêz um comentário:
-Percebi que as senhoras gostaram do nosso ambiente.
-Sim,porque vamos voltar,com certeza e traremos os nossos amigos aqui. Tao bem decorado. Quem é que decorou? Uma firma ou...
-Nao,aqui trabalhamos em familia. Nós pintamos e decoramos.Meu pai é aquele senhor que está no caixa. Na cozinha trabalham minha mae e sua irma. Tudo que vocês veem aqui,fora os móveis,talvez nao se repetirao quando voltarem. A decoracao é feita por artesaes.Pintores,ceramistas... A gente vende e ganha uma comissao.Com isso ajudamos e somos ajudados.

De volta ao quarto do hotel.,depois do banho, as duas pedem  um vinho e comemoram a idéia.

-É isso que vamos fazer,Janete. Nada d e restaurante.Uma simples Casa de Chá. Minha casa tem um porao e é nele que vai funcionar a nossa casa de Chá. A entrada é por fora,obviamente e faremos como essa familia(referem-se ao pessoal do local onde fizeram sua refeicao). Faremos contato com artesaes e assim decoraremos com seus trabalhos.Tenho uma conhecida que está desempregada,costura muito bem. As cortinas e toalhas de mesa ficarao por sua conta.Faremos um parquinho para as criancas dos fregueses e mais. A salao que você falou será transformado num salao d e beleza completo,ond e empregarei pessoas que conheco. Alugarei os quartos. E sabe aquele projeto d e fazer uma sauna? Está d e pé.
-E nós?
-Somos sócias. Você me empresta o dinheiro que prometeu para pagar minhas dívidas e assim faco um crédito no Bradesco e comecamos a trabalhar.